A todos os Professores

 

Minha vocação de comunicador não é menor do que outra que me acompanha há muito mais tempo, que é a de educador. Aliás, educador seria algo mais abrangente. Afinal, se na TV Ponto de Vista temos o mote de “Comunicar educando, educar comunicando” foi pensando nas minhas duas grandes vocações.

Comecei minha vida como professor. Sempre fui professor dentro e fora da sala de aula. Já fiz de tudo numa escola, desde limpar o chão da sala até dirigi-la. E isso tem muito, muito tempo.

Estou convencido de que quem ensina é a escola. É nela que aprendemos a formalizar os códigos de linguagem, as operações fundamentais da matemática… Há sábios que dizem que uma pessoa bem alfabetizada e com domínio das quatro operações básicas da aritmética está pronta para aprender tudo o mais. Todo o resto é aperfeiçoamento. Sem radicalismos, eu apoio bastante tal teoria.

Uma pessoa bem alfabetizada não sabe apenas silabar. Ao contrário, consegue interpretar claramente o sentido do que decodifica, dando vida ao código decifrado, que deve ser trabalhado incessantemente, dia após dia, aula após aula, dando base a outros saberes como o da história, da geografia, das ciências como um todo, sempre num crescendo.

Eu diria até, sendo um pouco romântico, que a alfabetização começa no primeiro ano e se estende por toda a vida acadêmica.

E quando se entende a linguagem, também a matemática deixa de ter senso apenas na decodificação de símbolos, mas passa a ser palpável antes de abstrata. Afinal, muito do que se aprende é a observação da prática, que se transforma em experiências que formulam teorias e criam enraizamentos mentais em nossas mentes.

Se o aluno não entende um enunciado de questão de prova ou de exercício, muito provavelmente lhe faltou a verdadeira alfabetização. Não lhe foi possível, com suas inteligências “lógico-matemática” e “psicolinguística”, atingir o que propunha a indagação. Muito provavelmente, a alfabetização foi iniciada, mas não houve continuidade.

Quem não compreende não aprende. Quem não aprende corre o risco de se desinteressar. Quem se desinteressa não tem prazer em estudar. O ciclo é vicioso!

Mas o professor não faz nada para melhorar isso? Sim, mas dentro do que pode.

Aqueles que trabalham com o início do Ensino Fundamental são menos impregnados por profundidades teóricas e mais estimulados a aplica-las, na prática. A mesma professora que ensina história está ciente das dificuldades de língua portuguesa de seus alunos e estabelece pronto paralelo entre o assunto estudado e a melhor forma de captação.

Já os professores especialistas nas diversas áreas do conhecimento aprendem muito sobre as teorias de Perrenoud, Vygotsky, Piaget, Paulo Freire, Montessori, etc., mas esbarram em pouquíssima prática de ensino e quase sempre a sala de aula real é o seu primeiro laboratório. Somando-se a isso, pouco se relacionam com as professoras das primeiras letras, que nem sempre cursaram uma faculdade, mas que durante anos ajudaram a lapidar aquele ser que ora chega as suas mãos. E tal falta de relacionamento não se resume a qualquer preconceito, mas também a recreios em horários diferentes ou trabalhos em contraturnos. Não é fácil!

O desafio está na integração. Talvez não a pessoal, mas a profissional.

Via de regra possuímos um conselho de classe por bimestre, que atende à Lei. Mas não atende às necessidades mais prementes da escola. Mesmo que discutindo sobre cada aluno, o Conselho se baseia no concreto das notas, que se baseia no concreto das provas, que se baseia no subjetivo do aprendizado.

Uma professora sozinha consegue ser mais eficaz do que vários ao mesmo tempo?

Se nós, professores, não conseguimos deixar claro sobre a importância do trabalho de equipe para nossos alunos é porque esta ideia ainda está longe de ser nossa prática habitual. O que nos falta é “aquela cumplicidade” da troca de saberes, que temos de sobra para oferecer, mas que nem sempre aceitamos receber. Mas não é uma questão apenas de dar e receber… A questão é compartilhar.

Num mundo turbulento, de educação balouçante, nenhum educador conseguirá nada sem cooperação. Se tem solução eu não sei. Afinal, estruturas cerebrais e conhecimentos se adaptam a cada momento. Mas podemos dar o primeiro passo, todos nos ajudando a partir de temas transversais vibrantes e atuais. Nem uma “escola sem partido”, nem uma “escola com partido”. Apenas uma escola educativa e unida em prol da nossa própria geração. Afinal, se fizermos nosso trabalho sentindo o melhor de nossa vocação, somos nós os beneficiados. Seremos ainda mais felizes. E estimularemos nossos jovens com o nosso exemplo, mesmo que a mídia jamais colabore.

 

Nota do autor:

                Este texto vem de um sincero sentimento de estímulo a todos os meus colegas professores de ontem, de hoje e do futuro. Eu creio no magistério!

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