Escola do meu tempo

 

No meu tempo de jovem, muitos colegas meus passavam a estudar à noite porque precisavam trabalhar para ajudar em casa. Isso foi antes do Estatuto da Criança e do Adolescente em que o jovem podia ser aprendiz em um pequeno negócio, estabelecer-se ali, melhorar à medida que estudava também, ou nem melhorar porque as leis trabalhistas não abrangiam seriamente a todos. O fato é que as pessoas que não se estabilizassem em um determinado emprego, buscavam chance de melhorar no estudo para galgarem novas oportunidades, normalmente em direito, contabilidade, administração de empresas… Os mais audazes ou os que possuíam um pé-de-meia, iam para medicina, engenharia e odontologia.

Não havia vagas para todos. Muitas vezes havia provas de seleção para que os melhores estudantes entrassem nas melhores colocações e não era raro, numa mesma série haver turmas dos mais dotados e turmas dos menos dotados.

Escola particular nunca foi barata. Escola Oficial era gratuita e quase sempre muito boa, apesar de escassa. Professores eram respeitados e se faziam respeitar. Alguns se faziam até temer. Fruto de uma época em que o mais velho era exemplo para o mais jovem. A disciplina era mais rígida: forma, hino nacional, hasteamento de bandeira, cobrir, firme, uniforme impecável, limpo e bem passado.  As provas eram mensais, de março a novembro. A prova final era em dezembro. Quem passasse, ótimo. Quem perdesse ia para a segunda época, que era uma prova no mês de fevereiro. Não havia estudos de recuperação. Quem não quisesse perder o ano, metia a cara – como se dizia na época – nos estudos. Interpretação de texto, equações, geografia política e física do Brasil e do mundo, estudos de ciências, história dos egípcios, dos gregos, mesopotâmios…

Não havendo internet, os livros eram fundamentais. Eram poucos, caros e passavam de um irmão para o outro, e até mesmo, de pai para filho. Abastadas eram as escolas que possuíam enciclopédias em suas bibliotecas, mas sempre havia uma biblioteca, por mais humilde que fosse. Dever de casa era muito e bem cobrado na aula seguinte.

Nem todos os professores tinham formação superior. Eram leigos de notório saber e respeitados por onde quer que fossem. Os alunos beijavam as mãos de suas antigas mestras como se fossem elas a segunda mãe. Eram visitadas pelos ex-alunos, mesmo quando envelheciam. Não era veneração pura. Era gratidão!

Via de regra, as salas de aula eram toscas. Carteiras de um ou dois lugares, mesa do professor, uma bandeira do Brasil, um quadro negro ou verde. Os alérgicos a giz sentavam atrás. Os míopes, na frente. Os bagunceiros, isolados. A ventilação era natural, se passasse vento pelas janelas. Não havia ventilador ou reclamação de calor absurdo. As luzes eram incandescentes e, quando o mundo começou a mudar, assumiram as fluorescentes.

Quem perdia o ano era chamado de repetente. Nada de dependência de duas ou três matérias. Era passar ou passar. Ninguém queria ser repetente e ninguém deixava de ir às aulas sem um motivo realmente importante. Ser repetente era considerado vergonha.

Educação Física nem sempre era esporte. Havia exercícios, corridas, saltos, calistenia… Ninguém saía da aula sem um bom banho. Era impensável!

A média para passar era 5 (cinco). Mas isso era nota de mau aluno. Bom aluno não tirava menos de 7,5 (sete e meio). Aliás, todo mundo queria ser o melhor aluno da classe. Não tinha esse negócio de CDF ou de Nerd sendo ridicularizados pelos que não estudavam. Bom aluno era exemplo. E como tal era destacado e imitado pelos demais.

Estamos em 2017.

Salas de aula mais confortáveis, computadores, internet, ar condicionado, professores graduados e pós-graduados, vagas nas escolas públicas, recuperação, dependência, três avaliações por bimestre, menores de 18 anos não trabalham, não fazem tarefas de casa ou de aula, professores são responsáveis pelo não aprendizado de quem não se esforça, faltas às aulas e às provas, além de direitos garantidos pelo ECA.

E eu me perguntando se realmente evoluímos.

 

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