Páginas da Vida

 
Ecos do Passado XV
 
A volta de Niterói para casa não foi, como poderia ter sido, tranquila. Foi cheia de contratempos, inconveniências e chatices. Nas barcas – sim! porque é assim que se diz  no linguajar popular – a demora foi exasperante. Vendo que a estação estava vazia, Luíza comprou um livro de bolso numa banca de jornais e revistas ali próxima – desses escritos em papel grosseiro – para passar o tempo. Buscou um de escritor conhecido e o que encontrou, pelas condições em que estava, já tinha sido folheado por diversas vezes. O nome do autor, de quem pouco se ouve falar nos dias de hoje, Martins Pena, vinha estampado na capa em letras grandes. O livro reúne peças, entre elas, a engraçadíssima “Juiz de paz na roça”, representando comédias da vida privada, novelas de costumes em forma teatral, com dramaticidade hilária. Mais veio a saber que Martins Pena (1815/1848) era muito considerado, inclusive como pai do teatro brasileiro.
 
Começou a ler pacientemente e até se divertiu com ele, com as situações criadas pelo autor. As peças ridicularizam as relações de família, da sociedade em si e em particular da aplicação da justiça, numa cidade do interior, com espírito moral de forma jocosa. Estava absorvida na leitura  quando a barca  atracou e por pouco não a perdeu.  Um ligeiro esbarrão, um rapaz que saiu apressado da roleta, despertou-lhe a atenção, despregando os olhos do livro, passeou os olhos ao redor e começou a andar, ela também, na direção da plataforma das embarcações. Num relance pensou que o rapaz a esbarrou intencionalmente, pois virando-se em sua direção o rapaz sorriu e piscou maliciosamente. Sorriso maroto.
 
Caminhou. A distância entre eles era de alguns metros, o suficiente para ver direitinho seu jeito de andar. Caminhava leve e solto, como um colegial despreocupado, livre dos problemas da sala de aulas. Na saída da barca, na Praça XV, no Rio, Luíza procurou se distanciar do jovem o mais que pode. Caminhou para o ponto de táxis, sem pressa, apesar dos perigos com o cair da noite. Foi uma espera longa, exasperante. Ficou nervosa e começava a se irritar. O primeiro táxis chegou, mas estava indisponível. Chegara para apanhar um passageiro de Niterói.
 
A noite se aproximava e a espera se prolongava. Corria risco de ser assaltada. Sabia que no Centro do Rio, mesmo na Praça XV, com a movimentação nas barracas de comida, de venda de cachaça e peixes, fritos e crus, ninguém estava livre de ser assaltado, roubado, de sofrer uma agressão física. O odor forte no ar irritava. Felizmente chegou um segundo táxi. Luíza se aproximou. O motorista abriu a porta, indagou para onde ia.
 
Copacabana, por favor.

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