Solitário

Ecos do Passado XVII
 
Os dias se passavam e não saía da cabeça de Luiz a imagem daquele cachorro faminto e triste, que buscava sobreviver com um pouco de comida, de carinho e afeto. Luiz não entendia porque ele se fora. Talvez – pensou – tenha sido o impulso da natureza animal. Sim. Talvez tenha sido isso ou não. Cachorro, sem dono, enfrenta com denodo humano as coisas desumanas, refletia Luiz, perambulando pelas ruas sem destino, sendo discriminado, até mesmo espancado, inclusive por crianças levadas que faziam dele saco de pancadas e objeto de brincadeiras crueis.  
 
Luiz ficava dias sem sair de casa, sem vontade para nada, vivendo de suas economias dos tempos de corretagem na Bolsa de Valores. Negócio que migrara do Rio para São Paulo. Essa mudança provocou nele profunda tristeza e insegurança. Situação difícil que ia se agravando, porque se afastara completamente do antigo ambiente do trabalho. O problema não era dinheiro, mas a falta de companhia. Não da Bolsa, pois pouco ia lá. Ele resolvia as coisas pelo telefone, sentado na mesa de um bar próximo da Praça XV. Nesse estranho ambiente de trabalho, Luiz bebericava, conversava com pessoas que não eram suas amigas, mas que com elas fizera amizade, sem vínculo de proximidade. O bar era apenas um lugar que lhe servia ao mesmo tempo de escritório e de passa-tempo. Um ambiente favorável aos seus negócios.
 
Diariamente, entre dez horas e duas horas depois do meio-dia, quando os negócios de compra e venda de ações se intensificavam no pregão, Luiz ficava ao telefone, ligando para um e para outro corretor, informando-se da tendência para o fechamento dos negócios, determinando compra e venda de ações, de acordo com as necessidades dos investidores. Com esse trabalho, todos ganhavam ou perdiam. Os donos das ações em jogo perdiam ou ganhavam mais. Seus ganhos, como corretor dependiam da valorização das ações, mas não perdia nunca, porque ele tanto ganhava na compra como na venda, embora o mais importante era ganhar, porque assim mantinha sua carteira de clientes intacta.
 
No bar, fizera amizade com o proprietário, um português boa praça, cheio de graça, que gostava de pilheriar. Tinha até um garçom que fizera dele seu preferido. O garçom, vindo do interior fluminense, mas com raízes nordestinas, com cara de mestiço, de tez com de barro, era alegre e igualmente ao português, conversador e brincalhão. Luiz também, o garçom, passou a chamar o nosso Luiz de xará. Isto tempos depois da convivência deste no bar durante anos.
   
Voltemos ao nosso boa vida, leitores, pois desempregado e alimentando a esperança de voltar a trabalhar na mesma atividade que conhecia tão bem, Luiz refletiu muito sobre a possibilidade de fixar-se numa corretora do Rio. Tinha um problema. Era autônomo, segurava seus clientes num esquema que montou diretamente na Bolsa. E as Corretoras de Valores não gostavam nem um pouco dessa gente independente.
 
O cachorro depois de receber o almoço daquele dia, saiu a passear e desapareceu. Certo dia ele voltou, como naquele outro dia, faminto e sujo. Luiz o acolheu com largo gesto de respeitosa amizade. Dessa vez, Luiz fez-lhe subir à varanda. Deu-lhe um banho com sabonete e depois comida.
 
– É, amigo, somos só nós dois no mundo – pensou Luiz, olhando silenciosamente para o animal.
Desse dia em diante, o cachorro não deixou mais Luiz sozinho. E, em agradecimento pela companhia, recebeu até um nome: Solitário.
 
E os dois solitariamente viveram, mas…um dia tentaram recomeçar a vida.

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