Nosso Homem na Serra

 

Um dos mais destacados gonçalenses no final do Império e princípio da República foi, sem dúvida, o médico Hermogênio Pereira da Silva, a quem a sua cidade natal não dedica uma só homenagem, embora sua memória seja cultuada no município pelo qual se empenhou, projetando o nome de São Gonçalo além de seus limites: Petrópolis.

Filho de Hermogênio Pereira da Silva (seu homônimo) e de Cândida Tibre Pereira da Silva, nasceu na Fazenda Engenho Novo do Retiro (destruída por descaso do governo estadual na década de 1990), em Cordeiros, São Gonçalo, em sete de janeiro de 1848. Casou-se com Maria Antônia Abreu e Souza [Pereira da Silva], de quem teve sete filhos, enviuvou e realizou segundas núpcias em 1885 com Carolina de Sá Carvalho [Pereira da Silva], que lhe deu mais três filhos. Faleceu em cinco de maio de 1915 em Petrópolis, onde foi sepultado.

Lembrado em outras cidades, Hermogênio Silva  não é lembrado no município em que nasceu: São Gonçalo.

Hermogênio ingressou na Escola de Medicina da Corte e, ainda estudante, foi como voluntário para a Guerra do Paraguai, de lá retornando para concluir o curso e viajar à Alemanha, em 1872, onde se especializou em oftalmologia, com passagem por hospitais alemães, franceses e ingleses. Ao voltar ao Brasil, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, RJ, e ali não apenas praticou a profissão como ingressou na política.

Vereador na Câmara Municipal carioca, de 1881 a 1884, apresentou projetos que indicavam sua aguda visão por serem a antecipação de obras depois realizadas e fundamentais para o Rio, como o Corte do Cantagalo e os Túneis Velho, Santa Bárbara e Rebouças. Mas, sua posição no legislativo da Corte era incômoda. Suas lembranças da escravatura e do coronelismo na região em que nascera (Cordeiros, São Gonçalo) colocavam-no contrário tanto à escravidão quanto à monarquia.

Por isso, ao encerrar-se o mandato, em 1884, resolveu subir a serra e foi para Petrópolis, onde empunhou a bandeira pela emancipação dos escravos e participou da criação do primeiro clube republicano fluminense, de que foi secretário. Sua luta pela República valeu-lhe a nomeação para delegado de polícia da cidade serrana e, a seguir, presidente do primeiro Conselho de Intendência (com funções de prefeito), na qual ficou até agosto de 1890, quando se desentendeu com o governador Francisco Portela e foi exonerado, juntamente com todos os intendentes.

Os ventos políticos sopravam-lhe favoravelmente e pouco depois Portela era deposto. Assumiu o governador José Tomás da Porciúncula que, em 17 de dezembro de 1891, nomeou o novo Conselho de Intendência de Petrópolis, entregando sua presidência a Hermogênio Silva. A 31 de janeiro de 1892 era ele eleito constituinte estadual, com o que veio a ser um dos signatários da Constituição de nove de abril seguinte.

Mais votado para a primeira Câmara Municipal republicana de Petrópolis, no pleito de 16 de junho de 1892, tomou posse no dia 30 e em primeiro de julho foi escolhido presidente do Legislativo (com funções de prefeito), cargo que ocupou também em 1893, 1894, 1896, 1897, 1901, 1902, 1904, 1908, 1909 e 1910, ano em que, a 14 de abril, renunciou à vida pública. Nesse período, foi o responsável em especial pelo cumprimento do plano original do major Júlio Frederico Koeler para a construção de Petrópolis, respeitando-lhe as condições geográficas, ecológicas, culturais e humanas.

A atuação de Hermogênio Silva não esteve, entretanto, limitada à cidade serrana. Além de ter sido constituinte estadual em 1892 e permanecido no mandato como parlamentar estadual, foi eleito terceiro vice-presidente (vice-governador) estadual em 15 de julho de 1894 para o período 1895/1897, exerceu o cargo de secretário estadual de Obras Públicas e Indústrias, em 1898 e 1899, e, cumulativamente, o de Interior e Justiça, em dois meses deste último ano. Reeleito para a ALERJ, foi seu presidente de 1901 a 1903, ano em que renunciou ao mandato em protesto contra o retorno da capital do Estado de Petrópolis para Niterói. Eleito senador da República em 1909, Hermogênio não teve o mandato validado pela Comissão de Reconhecimento dos Poderes, que existia naquela época para validar ou não o resultado das urnas. Este foi um dos motivos para abandonar a vida pública no ano seguinte.

Se Hermogênio Silva foi ignorado por seus conterrâneos gonçalenses, o mesmo não se deu em outras cidades. Em Três Rios, no centro-sul fluminense, ele dá nome a um dos bairros e à estação ferroviária local. E Petrópolis honra sua memória com várias homenagens: é patrono do centro cívico da Escola Municipal São Cristóvão, da rua que liga o bairro Pic-Nic à Estrada União e Indústria, do Paço Hermogênio Silva, sede do Legislativo, e do plenário da Câmara Municipal, onde se encontra seu retrato, além de placa com seu nome e datas de administração, na escadaria interna.


Fontes: Arquivo da Câmara Municipal de Petrópolis.

            Sá Earp, Arthur Leonardo, monografia.

            Vasconcellos, Francisco, Petrópolis: Sua Administração na República Velha, 1978.

            Instituto Histórico de Petrópolis.

            O Paiz, 06-05-1915, Biblioteca Nacional.

            Jornal do Commercio, 06-05-1915, Biblioteca Nacional.

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