Apenas Plateia

  • por

Os episódios no Sambódromo do Rio de Janeiro, cujas quebras de carros alegóricos feriram dezenas de pessoas no carnaval, por mais que sejam drásticos, são pequenos detalhes do descaso com que se tratam as coisas sérias neste país.

Na verdade, a ideia de “fazer bem feito” parece estar fora de moda. Hoje apenas se faz. Caso dê certo, ótimo. Se não der, faz-se de novo.

O “laissez faire, laissez passer”, que em tradução livre poderia ser um “deixa estar para ver como é que fica” aparenta falta de comprometimento, de apuro, de preocupação ou mesmo de prevenção. Em última análise, falta de respeito com a própria vida.

O compromisso parece estar limitado ao sentido deturpado de liberdade que se tem hoje. A liberdade é oposta ao conceito de servidão. Mas não é irresponsável em si. Ao contrário, a verdadeira liberdade, a Liberdade com “L” Maiúsculo, cerca-se de segurança para não limitar a própria liberdade e a dos outros.

O “deixa estar para ver como é que fica” pode ser encontrado naquela relação inconsequente em que um filho é gerado sem o menor cuidado ou de uma possível transmissão de uma DST.

Também se encontra a falta de compromisso quando o estudante sabe que precisa cumprir sua principal responsabilidade individual e social, que é estudar, e não o faz. Sabe que poderia ou que deveria tirar nota alta. Mas se contenta com um “cinco” básico e rasteiro. Quem estuda para a nota dez, caso derrape fica com nove ou oito. Mas quem estuda, se é que estuda, para um cinco, ao derrapar, cai para um quatro e se atira no vermelho.

Os próprios esportes radicais que permitem toda liberdade aos praticantes, cercam-se de cuidados preparatórios para que a segurança seja privilegiada. Caso assim não seja, a liberdade subutilizada pode levar a acidentes fatais ou graves, tornando a liberdade do sujeito limitada pela sua própria incúria. E há uma grande diferença entre tornar-se limitado por acidente e por descuido.

A terceira Lei de Newton diz que “a toda ação corresponde uma reação igual e em sentido contrario.” Isso é Física. É fato até que outra teoria prove o contrário. Conhecer os limites pode não ser negação à liberdade, mas puro bom senso. Tipo o indivíduo que se joga de um prédio alto para sentir o vento no rosto: pode ter liberdade para isso, mas provavelmente, uma única vez.

A mentalidade imediatista não faz com que enxerguemos o outro em nossa ânsia por liberdade. Em nome do show, carros alegóricos despencam. Em nome da ganância, prédios desabam por desvio de material. Em nome da incúria, ciclovias acabam no costão. Em nome do poder, déspotas esfacelam uma nação. Em nome do lucro, lotes são vendidos em áreas contaminadas.

É isso o que temos sido: um povo que quer direitos – muitos direitos – mas que não quer deveres ou responsabilidades. Um povo que se submete aos maus políticos e que neles vota. Um povo que não fiscaliza, que confunde qualidade com quantidade. Um povo que acha que lutar de forma cidadã é ir para as redes sociais e espalhar boatos sem se comprometer com os resultados. Um povo que diz lutar por educação mas que não quer estudar. Que chama tecnólogo de doutor e que acha que carro novo é a maior das conquistas.

Infeliz é o povo que não assume responsabilidades. Na verdade não pode ser chamado mesmo de povo.

É apenas plateia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *