Cárcere da morte

Mais uma rebelião em presídio, desta vez em Manaus.

Muitos podem virar a cara para o assunto, mas não podemos falar em humanidade se não pensamos nos encarcerados. Não é apologia ao crime ou às barbáries. Na pior das hipóteses é uma questão de justiça e de política pública.

É muito fácil delinquir num mundo violento como o nosso. Violência sempre gera mais violência e esse espalhamento vicioso não faz sociedade alguma prosperar.

Não há criminoso bonzinho. Mas há aqueles que se tornam criminosos por absoluta falta de opção. As razões são inúmeras, mesmo porque, criminalidade dá lucro para muita gente. Mas não é o viés que pretendo demonstrar.

Alguém já se perguntou o porquê da Holanda estar fechando presídios e aqui no Brasil eles viverem superlotados? A grosso modo é porque a justiça social na Holanda é totalmente diferente do que chamamos de justiça social aqui.

Não há dúvida de que o negro e o pobre fazem parte do maior contingente apenado no país, mas também é verdade que o mesmo negro e o mesmo pobre são a maioria da população do Brasil. E se a preocupação com o povo em si é mínima, porque haveria qualquer respeitabilidade com quem desafiou as regras?

Em nenhum momento justifica-se a criminalidade. Mas não há argumento mais covarde e sem sentido do que dizer que quem delinque deve “apodrecer” na cadeia. Mesmo porque cadeia no Brasil apodrece qualquer um mesmo. E de que adianta falar em regimes de progressão de pena se, na verdade, os presídios são infectos, amontoados de excluídos, tratados como dejetos sociais. Sobrevivem oitenta num espaço para oito. Não há como deitarem todos, não escolhem comida, nem sempre têm água. Não fazem diferença entre sol e chuva. Mal sabem a diferença entre matar e morrer. Tudo o que lhes resta é degradante. Até a possibilidade de virem a ser livres. Quase nunca são. Voltam para a cadeia porque são rejeitados pela sociedade e pela família ou porque se tornam soldados do poder paralelo – que nem sempre é tão paralelo assim – para queimarem arquivos e fazerem novos ganhos, evitando serem exterminados ou verem exterminadas as suas famílias.

Poucas são as iniciativas sérias pelo encarcerado. Não há qualquer ideia de educação ou de ressocialização a não ser por alguns grupos religiosos e pouquíssimos juízes. Quantos processos são perdidos e propositalmente engavetados? Quantos perdem as contas do tempo em que estão na cadeia?!!!

Não tenho pena de quem comete um crime e que acaba perdendo a liberdade. O que eu tenho é repulsa do jeito que o Estado trata essas pessoas que deveriam ser privadas da liberdade para serem humanizadas, mas que acabam se aperfeiçoando na desesperança e no ódio.

Do jeito que o estado faz, não é ressocialização o que pretendem. É jogar no inferno mesmo. Não é processo, é vingança. Ócio, dor, sofrimento, indignidade, ruína… e descaso: muito descaso.

Melhor os políticos enxergarem isso agora e humanizarem mais as cadeias. Pelo jeito, dentro em breve, muitos deles estarão por lá.

Um comentário em “Cárcere da morte

  • 3 de janeiro de 2017 em 17:15
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    Belíssimo artigo Frederico, não é necessário ser um especialista no assunto para detectar as falhas, necligencias, corrupção, etc. conscientes, dos administradores, do sistema prisional Brasileiro. Já alguém tempo tenho falado e escrito a respeito do sistema carcerário Brasileiro falido. Um barril de pólvora, preste a explodir, o q aconteceu, que pode virar alastrar para todo Brasil.
    Concordo com o artigo do professor Frederico, pq estou, Vice presidente do Conselho Comunitário da VEP ( Vara de Execuções Penais) do TJ / RJ.

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