Voz, grafite, tinta e toque

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Ah, o celular…

Quantos mistérios insondáveis se encontram nessa caixinha que passa pelo tempo, ora crescendo, ora reduzindo dimensões. Ora engordando, ora ficando fininho… Um aparelho completo! Ou não é?

Em verdade, sozinho, um celular nada mais é do que uma caixinha que faz um número limitado de coisas. Pode fotografar, filmar, apresentar um joguinho ou coisa do tipo. Mas para por aí.

Na prática, o celular é um pequeno portal por onde vemos o mundo, que nada seria sem antenas próximas, estações, satélites e outras invenções bem mais sofisticadas. São as grandes redes que fazem todo o trabalho de “facilitar” a nossa vida. E muitas vezes facilitam mesmo. Mas nem tudo é tão maravilhoso assim.

Tenho amigos que, em fotos de grupos, que aparecem de cabeça baixa, sem largar o celular. Eu mesmo vivo muito conectado. Porém, muito mais recebendo do que enviando informações. Parece estranho, mas pertenço a grupos de WhatsApp, alguns que eu criei e administro, que leio e não comento. Até porque eu acredito que não tenha necessidade e nem obrigação de comentar tudo. Pessoalmente não gosto muito da minha exposição individual. Mas, pela natureza de minhas profissões, sou impelido a mostrar as atividades em que me envolvo. Além disso gosto de jogar: toda noite, antes das minhas orações, jogo uma partida de “paciência”, de “sudoku” ou de “free cell”. Nada impactante para quem virou muitas noites jogando buraco na casa de amigos e de parentes.

No seu livro “A Estrada do Futuro”, Bill Gates nos alertava para coisas que já vislumbramos hoje como a interação e a participação conjunta em documentos, livros e outros. Mencionava contratos e operações bancárias. Focalizava o e-commerce como podia enxerga-lo.  Mas projetou um grande progresso para a educação que pouco podemos palpar hoje em dia. Mas por quê?

O mercado eletrônico para crianças e jovens está voltado para o entretenimento. Quase cem por cento dele. Divertimento, música, fotos, vídeos, amigos… tudo ao alcance das mãos – ou dos polegares, como queiram. Nada disso é difícil para uma criança aprender e “ir evoluindo” aos poucos.

Só que a maioria dos professores nasceu antes disso tudo. Alguns veem computador e celular com distância, a ponto de não mexer num aparato desses, com medo de estragar. E se são pacientes com os alunos a ponto de ensinar-lhes as disciplinas com vagar e atenção, se precisam aprender algo sobre informática, pegam “pela proa” um indivíduo que já sabe tudo, arranca-lhe o celular das mãos, faz o que o professor queria e não o deixa aprender a fazer. Pior: diz que já tinha explicado antes. Aí complica!

Por outro lado a informática entrou nas escolas pela porta certa: a de ensinar o uso de certos programas úteis. Só que ficou nisso. Os programas já evoluíram e os ambientes de informática não. Mesmo porque as mantenedoras já não veem muito sentido em terem “laboratórios” para os alunos verem seus e-mails, seu facebook e ficarem jogando. Um absurdo também.

Mas venhamos e convenhamos: quem cria jogos é porque tem ideia de jogar, de ter seu jogo muito difundido, de ganhar fama e dinheiro com o que faz. E quem faz programas educativos? Normalmente são universidades ou editoras, cujos professores possuem uma ideia concebida para o papel. Cabe aos técnicos transformarem o que foi feito em papel em algo intangível. Algo que vai ficar parecido com… papel, é claro! A lousa digital é mais realística.

Conheço professores-artistas que fazem aulas maravilhosas com tangram e com palavras cruzadas. Conheço professores entusiastas que conseguem levar seus alunos a viagens por meio das indicações literárias. Conheço professores incríveis que estimulam “mens sana in corpore sano”, por meio da iniciação esportiva e oxigenadora ou da arte criativa, que projeta a mente em diversas mídias.

Infelizmente, indústria e comércio são mais rápidos do que educação. Quem possui celular quer usar, mas o produto não tem classificação de faixa etária nem vem com o aviso “Use com moderação”. Tanto que no Brasil se multa pesadamente quem usa celular no trânsito. Não é muito diferente com nossos jovens e crianças. Há um longo caminho educativo pela frente. Talvez quando nossos wi-fi forem mais seletivos ou as redes melhor controladas…

O professor brasileiro é antes de tudo um forte! Mesmo sem ter sido preparado para tanta evolução ladeira a baixo, vai se adaptando e criando meios de superar sua própria dificuldade. E assim como é evolutivo deixar de só escrever a lápis para escrever a tinta, também é da evolução o uso do celular com o passar do tempo.

Se Bill Gates teve que esperar até ver algumas de suas previsões concretizadas, por que nós não teríamos?

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