À flor da pele – Ecos do Passado VII

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O carro deslizava lentamente no asfalto ainda molhado da chuva que caíra de madrugada. No volante, Luíza procurava se libertar da noite agitada que tivera, mas não conseguia. Com os olhos na estrada, ladeada por campos floridos, tendo aqui e ali um arbusto viçoso que sobressaia das flores brotadas do solo, meteu-se em pensamentos nebulosos.
 
Pensa. Pensa. E continua pensando. Não pretende mudar de vida, de estilo de vida, mas estranhamente quer ser outra pessoa. Luíza se preocupava com a possibilidade de perde-se, de praticar involuntariamente uma besteira qualquer e perder tudo. Perder a loja, o marido, os filhos e até os poucos amigos que tinha. Uma vida difícil. Viver não seria tudo para ela. Viver! Mas como! Sentia no coração que não vivia como gostaria de viver. Perdera esse sentimento que é viver, que é amar a vida, desde aquela noite. Noite sem fim e que ainda perdura em si como algo aterrador. Ah! Minha vida! Sentira muito aquele momento de deleite, mas foi só por uns instantes. Depois, com o aprofundamento da noite, com o temporal que ensombreou a lua, amortecendo seus raios, a tensão, o medo, tudo se apossou intensamente de seus corpos e mais nada restou. Mas tarde, com o novo dia, ressurgiu uma nesga de esperança.
 
A vida, porém, se transformara num pesadelo, numa espécie tumultuária sem sentido, cujas consequências seriam imprevisíveis, principalmente para alguém que até recentemente vivia lindamente, belamente, entre a família e as amigas, pessoas que viviam mais ou menos como ela, sem problemas a considerar. Saía da loja, quase sempre por volta das oitos horas da noite, e ao invés de ir direto para casa ia encontrar-se com as amigas, conversar, comer e beber alguma coisa, nem sempre no mesmo lugar, mas sempre em bar-restaurante de gente de fino trato, onde era possível encontrar pessoas refinadas, que se consideram da alta-média sociedade.
 
Uma passagem de nível, um sobressalto, devolveu-lhe a razão. E considerou. Não podia simplesmente sumir-se, abandonar tudo, sua família e seus amigos. Teria que continuar vivendo e até sonhando, mas não teria sentido vegetar. Imaginar que estava entre os vivos, sem contudo viver com eles, fazendo de conta que era um deles, não! Isto não! Precisava reagir e não fugir da realidade que a cercava. Era necessário, imperioso inclusive, que retornasse ao estado de espírito emocional que sempre norteou a sua natureza de mulher alegre e feliz.

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