A noite de Luiza – Ecos do Passado V

O dia terminou como de costume. A última cliente saiu tarde, por volta das vinte e uma horas, quando o boulevard começava a se esvaziar e a enorme avenida ia ficando deserta. Luíza caminhava sem pressa na direção da garagem que ficava próxima. Apesar da claridade proporcionada pelas luminárias, em alguns pontos, aqui e ali, surgiam manchas negras, principalmente nas esquinas. Uma leve brisa que vinha da direção do mar começou a soprar, trazendo a Luíza algumas lembranças de coisas que gostaria de esquecer, mas que estavam em sua memória. Pensou, por alguns instantes, em procurar um refúgio antes de ir para casa, mas refletiu. Em casa os filhos deveriam, talvez também o marido, estar aguardando-a para o boa noite, uma espécie de ritual, com a saudação de sempre: olá mamãe! como foi o seu dia?  E ela respondia, quase automaticamente, “foi como o de sempre, sem grandes novidades”.
 
Algumas clientes entraram na loja, experimentaram uma peça e outras, mas não compraram. Se resguardam da crise financeira, economizam no cartão de crédito, procurando espichar o dinheiro até o final do mês. Hoje em dia, com essas dificuldades todas, as pessoas andam mais cautelosas.
 
E assim seguiu em frente. No carro, Luíza pensou que também estava sendo vítima dessa situação, mas conseguia se segurar, pois não tinha muitas meninas trabalhando, apenas três, e o faturamento mensal dava para cobrir as despesas da loja. Em casa, o marido, engenheiro, segurava a barra, inclusive as despesas do colégio dos filhos. Mas Luíza vivia dividida, amava as crianças, mas não amava tanto assim o marido com quem vivia como bons amigos. Ao chegar em casa a recepção foi aquela que esperava, sem novidades. Uma hora, duas horas depois, Luíza já estava pronta para deitar-se ao lado do marido.
 
A noite, um pouco agitada, foi acometida de forte pesadelo que suportou inconscientemente, procurando se proteger. Tudo lhe parecia real. Viu-se no meio de um tiroteio na metade do dia, com muita gente correndo de um lado para o outro, tentando se proteger, enquanto os bandidos trocavam tiros com a polícia. Esse foi um dia horroroso em todos os sentidos. Mulheres gritando e homens correndo, fugindo das balas sem direção, que raspavam suas cabeças com zumbindos apavorantes.
 
Durante esses momentos terríveis, Luíza acordou apenas uma vez durante toda a noite. Sua agitação não foi percebida pelo marido, que dormia tranquilo e profundamente. Ao acordar, pela manhã, o sol já estava batendo na janela do quarto. Saltou da cama silenciosa e foi se  preparar para enfrentar um novo dia, pensando em si e nas crianças. E em mais ninguém.
 

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