A Sombra de Luíza

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Ecos do Passado X
 
São anos da década de 90. Movimentos nervosos se espalham e tomam conta da cidade e sabem porquê? Há uma certa rivalidade, a princípio enevoada, aparentemente sem contornos identificatórios, entre as cidades do Rio e São Paulo. Nesta, o trabalho é árduo pelo sobrevivência de homens simples e outros endinheirados. Aqueles lutam para ganhar o pão de cada dia e estes, os paulistas ricos, sôfregos, angustiados, procuram desesperadamente preservar e até aumentar os seus bens materiais.
 
A questão é a seguinte: nem um, nem outro, quer perder a posição social. Quem está na base  quer o topo da pirâmide e quem está lá em cima se esforça para não descer. E seus homens e mulheres trabalham…trabalham… A Bolsa de Valores, o mercado de capital e financeiro, os bancos e investimentos lucrativos estão no centro dessa discórdia e guerra fratricida. É de fato uma guerra e existe o risco calculado de uma cidade ou outra sair perdendo, arrastando ao desemprego muitos trabalhadores.
 
Luiz quer voltar a ser o que era. Quer entrar nessa guerra, mas está indeciso. Reflete e busca os meios que lhe permitam reingressar no ambiente ao qual pertencera por longos anos, de gente rica, do qual  se afastou de maneira extraordinária, inexplicavelmente extraordinária, que agora se encontrava em efervescência, numa luta intestina, envolvendo agentes financeiros públicos e privados, e o campo estava minado, ao ponto de causar graves consequências ao corretor de valores que nele se aventurava.
 
O mais prudente seria aguardar e foi o que Luiz fez, pois ainda lhe sobrava algum dinheiro para tocar a vida. Mas em sua cabeça ainda pairava uma sombra, a sombra de Luíza, cuja imagem angelical, de uma inocência primitiva, suave, cujos olhos e gestos transmitiam sentimentos de amor puro, mas que algo não lhe permitia entregar-se como desejaria, diante das circunstâncias daquela noite tempestuosa, que enegrecera a lua e paradoxalmente clareava o horizonte com os raios dos trovões que espoucavam no ar.
 
Luiz ainda alimentava uma esperança, desejava um reencontro, mas provavelmente isto seria quase impossível. Não sabia de fato quem era, onde morava, se estava disponível. Dela, na verdade, não sabia nada. Então ele teria que se resignar e buscar uma nova vida. Mas…o homem, enfim, jamais pode abdicar de ser feliz.

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