Ecos do Passado – Capítulo Primeiro

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Não! Não posso acreditar! Isto não deveria ter acontecido. Desculpe-me, por Deus!
O relógio na mesinha de cabeceira marcava vinte e três horas, faltando poucos minutos. Trovões e raios romperam a escuridão lá fora e lançaram luzes intermitentes para dentro do quarto anunciando forte tempestade.
O corpo estendido sobre a cama e olhos interrogativos. O que teria acontecido? O barulho da natureza assustou e provavelmente paralisou ou inibiu o membro da iniciação. Também teria afetado as mentes e os pensamentos acionadores do processo que daria seguimento ao ato que nem teria  começado.
Tal coisa jamais aconteceu com tamanha força inibidora do ato que seria natural, belo, da comunhão de dois corpos que ainda não se conheciam, mas que estavam prontos para se conhecerem, para ganharem uma nova vida, que poderia ser feliz ou infeliz ao longo dos anos. Nunca se sabe, não é mesmo? O tempo passa e os corpos permanecem quase imóveis. Percebe-se, no entanto, que as mentes trabalham, mas não voltam ao estado em que estavam quando foram crivadas pelos trovões e os raios.
As mentes trabalham incansavelmente, dão volteios sofríveis. Não param. Não encontram o que procura, mas não param. Os corpos continuam imóveis. Os olhos falam por si. São interrogativos e buscam uma explicação. O rapaz busca para si uma explicação. Qualquer coisa que justifique o que aconteceu com ele ou com ambos. Parece perplexo, mas na verdade está surpreso e angustiado. Ele se encontra numa situação constrangedora. Há meses, dia após dia, vinha observando a linda jovem que a desejava nos seus braços, em sua cama, num quarto de hotel, amando-se. Seu desejo era imenso.
Esse dia chegou, inesperadamente, e da maneira mais estranha, quase casual. Encontrava-se no bar do hotel que frequentava em Ipanema uma vez por semana, sempre ao cair da noite e lá ficava até por volta da meia noite. Bebia uísque e ouvia música. Ao sair, gratificava o garçom, dizia até breve e era só.
Nesse dia, com a noite se aproximando, ele entrou no hotel e caminhou para o balcão do bar, sentou e pediu o de sempre, além de filé mignhon picado ao molho madeira. Levou alguns minutos para esvaziar a primeira dose. Quieto no seu canto, ouvia silencioso a música ambiente, provavelmente refletindo sobre os movimentos de sobe e desce da bolsa de valores, que acompanhava como operador de alguns amigos endinheirados.
Sua companhia dessa noite, ele a viu pela primeira vez há dois ou três meses e voltou a vê-la outras vezes, sempre vestida com sobriedade. Nessas ocasiões estava quase sempre sozinha. Bebia alguma coisa, coquetel de preferência, comia algo e saía. Algumas vezes chegava acompanhada de amigas, conversavam animadamente, riam, dividiam a conta e saíam.
Nessa noite, ela chegou sozinha, se dirigiu ao balcão ao invés de sentar-se numa das mesas. Vestia um conjunto de saia e blusa azul piscina. Estava muito elegante. Não trocaram olhares furtivos, mas se viam e se examinavam cada qual de maneira peculiar. Não estavam distante um do outro. Garota de Ipanema invade o ambiente, excitando agradevelmente ele e ela, fazendo-os balançar levemente nos bancos. A seguir o sistema de som transmite Samba do Avião, outro clássico de Tom Jobim. Ele lhe acena com o copo, num gesto de oferecimento. Ela ri com suavidade. Sorriso meigo, lascivo. Ele a convida para sentar-se ao seu lado. Ela aceita. Conversam longamente. Conversa em surdina. E assim ficaram muito próximos por quase uma hora. Uma eternidade para os enamorados.
A banda do bar chega e começa a arrumar os instrumentos enquando a música ambiente continua em lamentos. A banda afina os instrumentos para começar a tocar. Lá fora tudo era silêncio. Saíram um ao lado do outro sem se tocarem. Chegaram ao destino final com a noite linda. A lua estava sendo coberta por nuvens. Imagem lúgubre. No quarto para a iniciação, os relâmpagos e os trovões chegaram inesperadamente e os primeiros pingos de água começaram a cair e a salpicarem a janela do quarto onde estavam, ela ainda na cama e ele de pé, silencioso.
Situação incompreensível. Ela ergueu a cabeça. Curvou-se um pouco e disse com tristeza: – é da natureza humana, amigo. Não se culpe. Sempre haverá outro dia.
E ele: – É, sim, mas nem tanto. Mas…sempre haverá um outro dia.
Falta muito para o amanhecer e a madrugada é triste, solitária, mesmo estando com uma companhia. Mas…e daí, essa companhia é de pouca valia, pelos menos agora diante da impotência. O quê fazer? Um passado distante. Não muito distante, volta à mente para relembranças de uma época em que não se tinha muita responsabilidade. Nesse passado, alegre, sim, mas sem um futuro à vista. Não se sabe o que viria a ser o amanhã. Podia ser qualquer coisa. Difícil saber. Não saberia o que fazer. Ficar seria  prolongar a situação humilhante. Permanecer imóvel seria prolongar a impotência. Sair, abandoná-la ali, agora sentada na cama, despida, seria covardia. Um covarde! Não! Covarde? Não!
Acontece que em situações assim surge a vontade de buscar uma saída. Sim. Uma saída, qualquer saída. Mas…quê saída? Ela simplesmente, mesmo dizendo compreender, não entenderia bem uma decisão dessa. Ora… mas isso não pode ser por toda a vida, não. Num outro dia, as coisas não seriam assim, não, com feição de acabadas, definitivamente acabadas. Agora, sim, tudo parece que acabou. Mas não, não acabou porque é muito complicada uma decisão dessa natureza. A pessoa luta intensamente para se reencontrar, reconhecer-se nesse processo de reconstrução orgânica, com tudo que seja parte de si, mas não consegue. Simplesmente não consegue. E o tempo vai passando, passando rapidamente. Sabe que tem que se recompor. Vestir-se e sair, mas também não consegue. Luta com seus pensamentos. Ora pensa em sair desse quarto correndo, fugindo de tudo, esquecer tudo. Ora pensa em ficar, arranjar as coisas até mesmo para que fiquem amigos, para que sejam, daí pra frente, verdadeiros amigos, para que tenham uma verdadeira amizade. Está apiedada ou mesmo arrependida de que tenha chegado a essa situação. Apiedade dela própria e também dele.
Vira-se e olha para a janela. A chuva continua firme e forte, mas sem trovões e relâmpagos. Volta a cabeça e fixa os olhos no corpo em pé, ereto à sua frente e vê nele uma espécie de espantalho. Um cadáver em pé. Num vislumbre tira o espantalho da mente, tira o cadáver da mente, e lembra de momentos antes quando ainda estavam no bar do hotel, acalentando-se ao som, à voz, de Tom Jobim. Sente na boca o gosto, o sabor do coquetel de frutas com uísque que ele lhe ofereceu. Lembrou da mão delicada, macia, que afagava a sua com doçura. E de ambos caminhando, lado a lado, sem se tocarem.
Na verdade só se tocaram no táxis, quando ele abraçou-a e beijo-a na boca com sofreguidão. Beijo ardente de quem ama com paixão. Amor. Paixão. Seria verdade!? Não, não seria. A verdade é que ele a acompanhava de longe, quereria para si como uma espécie de aventura. Uma conquista que deveria esquecer. Poderia, sim, de vez em quando se encontrarem. Mas isto não seria aconselhável. Ela casada, com filhos. E ele também casado, não se sabe se com filhos ou não, de qualquer maneira esses encontros às escondidas, mesmo que fortuitos, não seriam nada aconselháveis.

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