Oftalmologista do SUS

Primeiramente, meus caros, digo que não tem nada demais vocês não disporem de um plano de saúde, pago diretamente do seus bolsos. Isto hoje é até uma bênção, porque esses planos nos dias atuais valem pouquíssimo. O SUS é até de bom tom, sabem! O pessoal do SUS, da clínica que atende o SUS, é educado, se apresenta muito bem, veste-se com decência, é respeitoso.
 
Agora sim, prestem bem atenção, porque o cidadão ou cidadã que necessita, com uma certa urgência, de tratamento oftalmológico, seja lá qual for o exame que precise, inclusive de procedimentos cirúrgicos, tem que ter paciência, porque a caminhada é longa e exaustiva.
 
O primeiro passo é dado na direção da Policlínica Alcântara, ali mesmo ao lado da cabeceira do Viaduto, em se tratando de morador de São Gonçalo, onde o cidadão ou cidadã tem que chegar cedinho para ser atendido por uma das quatro pessoas designadas para esse fim, que lhe pede os documentos necessários – carteira de identidade, CPF, Cartão do SUS, nº do cadastro municipal de saúde e comprovante de residência – e, se tudo estiver certinho, é solicitado a autorização para os procedimentos ao SUS, representação no Rio ou Brasília.
 
O primeiro passo foi dado e ele consumiu um pouco de sua paciência, de um a dois dias, e mais algumas horas. O segundo passo para começar a atravessar o Rubicão é mais longo e um pouquinho mais demorado. Vai exigir mais paciência, um pouquinho mais de paciência, porque a caminhada é longa e difícil. Nesse estágio você, meu caro amigo, terá uma bela surpresa. Pensa que vai ser operado! Nada disso, amigo. Sabe, o negócio é sério. Não é brincadeira, não.
 
A clínica, depois que é autorizada a fazer os procedimentos necessários, toma os cuidados indispensáveis ao sucesso da intervenção cirúrgica. Não pode haver erro, mas às vezes há. Aí você passa pelos exames pré-operatórios, o que leva um certo tempo. Munido de paciência de Jó, você aguarda um bom tempo até que seu nome é cantado pelo funcionário. Surpreso, você sai capengando, cansado, da cadeira ou do banco, para se apresentar à vistosa menina de uniforme ou ao funcionário carrancudo.
 
O segundo passo para começar a atravessar o Rubicão é mais longo e um pouquinho mais demorado. Vai exigir mais paciência, um pouquinho mais de paciência, porque a caminhada é longa e difícil.
 
Entrando no quartinho, que tem placa de consultório, o jovem médico lhe indaga o que tem, porque está ali. E você conta a sua história, um pouquinho desconfiado da competência do cara, porque você foi a ele para saber o que tem, isto porque você simplesmente quer saber. Mas o oftalmo prossegue, com ar de lente altamente experiente. Leva você pra sentar em uma cadeira, tendo ao lado uma bela gerigonça, na verdade um esquisito esqueleto, com braços e cabeças de Medusa, tentáculos altamente suspeitos. 
Mexe pra cá, mexe pra lá, derrama um líquido nos seus olhos, olha neles através de outra gerigonça que se aproxima, se afasta, acende uma luz, apaga, acende outra, mais líquido. E, ao fim de alguns longos minutos, olha pra você e diz: – O Senhor está com a pressão ocular muito alta, uma catarata, glaucoma, mas não precisa operar. Vamos cuidar disso. Não podemos deixar essa coisa avançar.
 
E indaga se você usa algum colírio, se não usa vai ter que usar que é para equilibrar a pressão ocular, pois senão corre o risco de ficar cego, porque o campo de visão vai se fechando até ficar tudo escuro, ou seja, cego. Você reclama dos preços do colírio. Ele responde que é isso mesmo, tudo está caro, e penalizado com a sua situação, ele abre a gaveta e pega uma caixinha, pega da caneta e escreve num receituário o nome do colírio e diz: esse é o mais barato, mas resolve. Os outros são caríssimos.
 
Ao passar às suas mãos a receita, recomenda: marque a consulta no balcão. No balcão, a moça informa que marcação de consulta só no próximo mês. E aí, meu caro, a via crucis ainda não terminou, porque a consulta será marcada para algumas semanas adiante. 
 

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