Vida amarga – Ecos do Passado VI

  • por
Triste. Amargurado. Visivelmente abatido. Seriam mesmo estes termos certos para descrever o estado de espírito ou emocional desse rapaz que vive a se lamentar. A queixar-se da vida. Tinha-se ao longo das últimas semanas um quadro desolador, quase indescritível. Um homem acabrunhado, insensível às falas. Não ouvia e pouco falava. Um homem solitário e angustiado.
 
Ora! Ora! Ora! Mas quem esse rapaz pensa que é! Há pouco seria um destruidor de almas. Arrebatador de corações e almas. Um exterminador de futuro e de esperanças, de uma possível vida nova. E agora pensa ou deve estar pesando que pode simplesmente se reencontrar, reconstruir a vida. Bem, talvez possa: não sou culpado de nada! Não fiz nada! – pensaria ele, olhando-se no espelho. 
 
Sim. Talvez seja verdade que ele, não apenas ele, seja culpado pelo que aconteceu naquela noite que viria marcar a sua vida, provavelmente por toda a vida, transformando-o num ser desesperado e sem esperança, sem possibilidade de voltar a ser o que era antes. Luíza também tinha sua parcela de culpa, com sua meiguice, seu jeito sedutor, de menina mimada e inocente. Sim. Ela também tinha sua parcela de culpa.
 
Aquele bar-restaurante-boate era para ele, e sempre fora, uma espécie de porto seguro, onde refazia o dia de trabalho, observando e controlando as cotações das Bolsas. Mas aí Luíza apareceu, elegante, faceira, encantadora, dominadora, quase destruindo a vida dos dois. Ele solteiro, mas e ela, a família dela. Como ficaria, então, se tudo fosse consumado como era esperado? Ninguém saberia dizer, não. Ah! o amor. O amor é um mistério insondável.
 
E ele foi sendo dominado aos poucos, como uma pessoa carente de carinho, de afeto e de amor. Não chegaram a se amar. O que houve foi súbita paixão, que logo se desfez num gesto extremo de incompletude, pois não conseguiram iniciar o ato supremo da conjunção carnal e da criação. Na verdade se não fosse a estranheza, se aquela coisa não tivesse acontecido, quem sabe o que poderia acontecer daquela noite em diante. Ninguém saberia. Poderiam acontecer coisas incompreensíveis e até mesmo lamentáveis, mas que para ambos poderiam ser consideradas naturais em nome do destino. Sim. Do destino.
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *