Vozes do Inconsciente

Ecos do Passado XII

 

Luiz ouve uma voz, insistente e firme, ameaça: trago seu amor de volta. E acrescenta: o trabalho é garantido. Não tem como reagir contra, tentar impedir o feitiço, porque é coisa d’África, herança cultural de grandes espíritos do bem, de antigos mestres espirituais que transmitiram ensinamentos aos longos dos séculos, sem impedimentos misteriosos de almas penadas.
 
Luiz pensa: – devo estar sonhando…delirando. Não pedi nada. Não quero nada. 
 
A voz, agora mais firme, e menos insinuante: não acredita!
 
E Luiz, incrédulo, não acredita ter ouvido com nitidez a voz que lhe pareceu vir de longe, de muito distante. Um pouco apavorado, pensa acreditar em algo muito estranho, uma natureza morta rediviva chegando aos seus sensíveis ouvidos. Ora, seria isso coisa de almas endemoninhadas, desconectadas da vida e que buscam amparo ao tentar salvar outras almas penadas.
 
Verifica, beliscando-se, e confirma. Não estava dormitando. A sua volta existia a escuridão e nele a certeza de que não estava delirando. Realmente ouviu isso, mas quem poderia ser. Como isso poderia estar acontecendo. Ah! não sei – pensou. Apenas uma ou no máximo duas vezes chegou a cogitar em reencontrar-se com Luíza, mas logo essa tal possibilidade saiu da sua cabeça. Acreditar numa reconciliação seria uma possibilidade difícil de se concretizar, pois não saberia como isso poderia acontecer se durante todo esse tempo nenhum sinal de reaproximação aconteceu.
 
Mas…se não há interesse, porque se houvesse já teria o procurado e proposto um reencontro amoroso. Saberia onde encontrá-lo. E medita:- não sei, mas isto seria até possível se houvesse dentro dela um pouco de tenacidade, de desejo incontido, mas não acredito que tivesse. Se não o procurou era porque não estaria disposta a largar tudo por ele. Não! não! não! Certo é que tudo estava acabado. Acredita que ela quer mais é ficar com a família, reconstruir a vida.
 
Então, não tem como ela sair correndo, desesperadamente, para os seus braços. Nos quais ela não teria o conforto que, ao encontrarem-se, naquele ambiente agradável, apropriado para os encantos do coração, Luiz percebeu de imediato que se tratava de uma pessoa diferente, que vivia uma vida deliciosa no seio de seus familiares e amigos, deveria ter pensado em ter apenas uma certa aventura sem comprometimento sério que, surpreendemente, poderia arruinar a sua vida de mulher aparentemente independente, mas que não era bem assim. Tinha suas responsabilidades.
 
Por isso Luiz passou a acreditar que nenhuma força no mundo, nessa altura da vida, impulsionaria seu coração ao encontro do seu, e retomar o que deixou para trás. É inteiramente impossível ela tentar esse reencontro e dizer: – amor, perdoe-me.
 
Isso é inteiramente impossível, pensou Luiz, que leu, poucos dias atrás, em um muro da cidade que seria possível trazer o amor de volta, exatamente com a mesma paixão, o mesmo calor, fidelidade… E falou para si: Não! Isto é uma coisa insana. É possível que essa promessa, esse comprometimento, seja uma farsa. Uma armação para ganhar dinheiro. Uma ilusão  com chama de esperança para enganar, iludir, toldar as mentes dos apaixanados.
 
– Não caio nessa. Não entro nesse jogo de cartas. Hoje me sinto mais seguro e crente de que o que passou, passou e o passado não tem volta. Não quero sofrer mais do que estou sofrendo. Não sei onde ela está, como ela está, nem pelo que está passando. Agora o que quero é ir em frente e continuar vivendo…vivendo uma vida nova, não novos desatinados desafios – assim pensou com conficção e firmeza, chegando a conclusão de que tudo estava acabado e ele agora era outro e não mais aquela pessoa mesquinha.
 
Afinal, concluiu que não seria fácil superar a dor, os desgostos e as desventuras que atingem o âmago da alma.

Um comentário em “Vozes do Inconsciente

  • 26 de janeiro de 2017 em 08:45
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    Legal, Fred.
    Às vezes, no silêncio da noite, na solidão, as vozes se manifestam sem se materializarem, mas elas sempre estão em nosso inconsciente. Ficam paralisadas e nos paralisam quando se manifestam.

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