Cidadãos do Patronato

 

Instituição relevante no serviço social em São Gonçalo e no Estado do Rio de Janeiro foi o Patronato de Menores Abandonados do Estado do Rio de Janeiro, ou simplesmente Patronato de Menores, que deu origem ao nome do bairro de Patronato.

Ele teve início com o presidente (governador) Oliveira Botelho que, em dez de maio de 1912, baixou o decreto número 1247, abrindo crédito de 16:500$ para a compra do Sítio Jacaré, a fim de nele ser instalada uma colônia de alienados. À época, pertencia ao deputado e vereador niteroiense José Ferreira de Aguiar, que recebeu aquele valor em títulos podres do governo do Estado, a vencerem em 40 anos.

Retardaram-se as obras para a instalação da colônia de alienados e, na campanha eleitoral de 1914, o senador e então candidato oposicionista ao governo do Estado, Nilo Peçanha, veio a São Gonçalo em cinco de julho daquele ano, e assumiu o compromisso com seus correligionários de dar outra destinação àquele imóvel.

Fazenda Jacaré (foto: Dr. Sérgio Toledo Rodrigues) in Blog Tafulhar - tafulhar.com.br
Fazenda Jacaré (foto: Dr. Sérgio Toledo Rodrigues) in Blog Tafulhar – www.tafulhar.com.br

Vitorioso no pleito do dia 12 seguinte, Nilo Peçanha assumiu o mandato em 31 de dezembro do mesmo ano. Já presidente (governador) do estado, visitou a cidade em sete de fevereiro de 1915 e almoçou na residência de Augusto Travassos de Lemos, no centro; em primeiro de março aqui retornou, quando foi saudado pelo professor Armando Gonçalves; e, em cinco de setembro seguinte, era recepcionado na residência de José Paulo de Azevedo Sodré (futuro vereador e prefeito), em Cordeiros. Nas três ocasiões, foi cobrado sobre a colônia de alienados e sua nova destinação, o que o levou a ceder a área para uma entidade filantrópica ainda em 1915, em caráter experimental.

                     Tratava-se do Patronato de Menores Abandonados do Estado do Rio de Janeiro, fundado em Niterói em 23 de setembro de 1915, data em que foram aprovados seus estatutos e eleita sua primeira diretoria, presidida pelo desembargador Gustavo Alberto de Aquino e Castro, que tinha como companheiros o visconde de Moraes (José Júlio Pereira de Moraes, vice-presidente), o desembargador Luiz Antonino de Souza Neves e o promotor José Cortes Júnior (secretários), e os comerciantes Júlio Ribeiro Sobral (tesoureiro) e Antônio Gonçalves Lopes (procurador).

                     Coube àquela instituição instalar o Patronato e inaugurá-lo, com dez meninos, em 29 de junho de 1917, em cerimônia simples, a que estavam presentes apenas a diretoria, a imprensa, o Conselho Superior Administrativo (órgão do governo do estado) e o grande cooperador da obra, doutor Macedo Torres. Com sistema de internato, destinado apenas a órfãos do sexo masculino e com rígido (e por isso mesmo eficaz) sistema de ensino, ele preparou várias gerações de jovens para a vida produtiva em favor de si mesmos e da sociedade.

Mantê-lo não era coisa fácil, mas para isso a diretoria contava com ajuda de vários segmentos sociais, dos mais elevados aos mais baixos estratos. As obras de adaptação da casa grande mal começaram quando o coronel (da Guarda Nacional) Henrique Milhomens, dirigente da Tramway Rural Fluminense (primeiro sistema de transporte coletivo municipal de São Gonçalo), doou 100 contos de réis, em seis de maio de 1916, tornando-se benfeitor da entidade.

Inaugurado, contou com ajudas fundamentais, como a do comerciante Antônio Gonçalves de Miranda, que forneceu toda a alimentação, gratuitamente, de 1918 até sua morte, em 28 de dezembro de 1934; a da farmacêutica Anália Santos, que garantiu todos os medicamentos do primeiro dia até 1940; a do conde Pereira Carneiro, que em 25 de abril de 1922, doou 2.000$000 e todas as máquinas para instalação de sua primeira oficina; e a do português Domingos de Souza Marques, residente no Porto, que em 21 de junho de 1925 doou 200$000 e, nos cinco anos seguintes, mais 250$000 para os cinco melhores alunos; além de muitas outras pessoas que seria enfadonho aqui nominar.

Ele era de tal importância que os presidentes (como se chamavam os governadores na última década do século XIX e nas duas décadas iniciais do XX) nele estavam com frequência: Agnello Collet, em 1918, não só participava das reuniões da diretoria como dirigia a banca examinadora dos alunos; Raul Veiga aqui esteve em 15 de junho de 1920 para vistoriar as instalações; Feliciano Sodré, em 1925, doou tômbolas da Cruz Vermelha e os primeiros 18 instrumentos para a criação de sua banda de música (que em 1926 receberia a doação de 80 talabartes do Corpo Policial, atual PMERJ, e de 300 fardamentos de lã, do 2º Batalhão de Caçadores do Exército, depois 3º RI), e em 1927 designou duas professoras estaduais em oito de março e em sete de setembro criou a escola (hoje Coronel Tarcísio Bueno) para atender aos internos; Manoel Duarte, em 1928, premiou os alunos que mais se destacaram; Protógenes Guimarães, em 1936, a caminho de seu sítio (onde depois viria a ser instalado o Abrigo do Cristo Redentor) nunca deixava de parar no Patronato; e o interventor federal Amaral Peixoto e sua esposa, dona Alzira Vargas do Amaral Peixoto, inauguraram a padaria do Patronato em 19 de julho de1941. Para ajudar o esforço em favor das crianças órfãs, desde sua criação funcionava uma Associação de Damas de Honra, das quais uma das mais ativas foi a professora Antonieta Faustina.

Sua história começou a mudar quando a diretoria, a 17 de setembro de 1940, decidiu incorporá-lo à Obra de Assistência aos Mendigos e Menores Desamparados do Estado do Rio de Janeiro, mantenedora do Abrigo do Cristo Redentor de São Gonçalo, à época em construção. Em quatro de maio de 1943, a pedido de Levy Miranda, sua administração foi transferida à Fundação do Abrigo do Cristo Redentor da cidade do Rio de Janeiro que, em crise financeira, em 1963 devolveu-o ao ACR-SG. Com 279 internos e gastos cada vez maiores, o Patronato de Menores tornou-se um problema para o Abrigo do Cristo Redentor, cuja diretoria, em primeiro de setembro de 1967, resolveu deixá-lo sob a responsabilidade da Fundação Estadual de Educação do Menor (FEEM-RJ), que encerrou suas atividades e abandonou a área.

Hoje, o que era o Patronato de Menores está ocupado pela Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FFP-UERJ), Igreja de Nossa Senhora Aparecida (originária da capela inaugurada em 24 de junho de 1917), Colégio Estadual Coronel João Tarcísio Bueno (remanescente da escola estadual criada em sete de setembro de 1927 para os internos do Patronato e depois aberta à comunidade, cujo primeiro aniversário foi comemorado com a opereta A Ceia Original, de autoria de sua diretora, Cândida Silva, interpretada pelos alunos), Colégio Estadual Walter Orlandini, dois Centros Integrados de Educação Pública (CIEP), Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de São Gonçalo (Apae-SG) e uma associação de radioamadores. Há ainda duas invasões e a casa-grande da Fazenda Jacaré está igualmente invadida.

Sempre tive pelo Patronato enorme admiração e lembro-me de ver sua garbosa banda de música em vários eventos cívicos e sociais, mas o que nele mais me chamava a atenção era a formação que dava àqueles meninos e o orgulho com que todos eles se referiam ao Patronato, depois de dele saírem.

São casos exemplares os dos dois cidadãos aos quais tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Um deles era Mário da Costa Dias, ou simplesmente “seu” Mário: Nascido na região de Santa Isabel, em 24 de setembro de 1916, perdeu o pai antes de completar um ano de idade. O dia seis de julho de 1917 foi uma tragédia: uma carroça da então Companhia Brasileira de Energia Elétrica (hoje denominada Ampla S.A.) passava sobre a péssima ponte que ali existia (pranchões de madeira, apoiados em concreto nas extremidades) quando uma das tábuas cedeu e o meio de transporte foi lançado às águas, morrendo afogados Olympio Dias e os dois muares que puxavam a carroça.

Aqui, é preciso abrir parênteses: até os anos 1950, o Rio Alcântara, caudaloso, registrara vários afogamentos, era navegável por pequenas embarcações e servia para escoar boa parte da produção da Companhia Eletroquímica Fluminense (onde agora há um bloco de edifícios) e da Companhia Industrial de Papéis Alcântara Limitada (onde hoje está um supermercado) até a Baía de Guanabara e daí ao Porto do Rio de Janeiro. Hoje, não passa de um valão infecto. Se alguém ali cair, morre de concussão cerebral ou, se escapar, de hepatite, leptospirose ou qualquer outra doença contagiosa. Afogado, só se for em dia de enchente. O Rio Alcântara é a prova de como nós, humanos, destruímos a Natureza nas últimas seis décadas.

Voltando a “seu” Mário: Órfão de pai, enfrentou a orfandade materna três anos depois, com a morte de sua mãe, dona Ermelinda da Costa Dias, vítima de doença não diagnosticada, e passou à guarda dos tios paternos, pelos quais foi internado no Patronato em 1921. Ali estudou até 1930, quando deixou a instituição e foi trabalhar, com 14 anos de idade, como auxiliar, na Garagem Niterói (no local hoje está o Plaza Shopping), onde complementou os conhecimentos mecânicos adquiridos no internato. Graças a trabalho dobrado e muita economia, anos depois montou sua própria cerâmica, em São Gonçalo, e criou máquinas para produzir telhas e manilhas em série, substituindo o trabalho manual comum à época. Espírito inventivo, durante a segunda Grande Guerra, com a escassez de combustíveis, preparou o motor de seu caminhão para funcionar com gás de carvão vegetal. Trafegava pelas ruas de São Gonçalo para fazer a entrega de seus produtos e agradava tanto aos passantes que passou a adaptar motores de caminhão, ônibus e automóveis para o consumo de gás de carvão. Por isso, ganhou o apelido de Mário Gasogênio até seu falecimento, em 30 de junho de 2002. Foi sepultado no Cemitério de São Miguel, em São Gonçalo.

                     Suas conversas, extremamente agradáveis, giravam quase sempre em torno de sua passagem pelo Patronato. Antitabagista convicto, lembrava a única vez em que colocou um cigarro na boca: era interno do Patronato e certo dia um visitante jogou uma ponta de cigarro no chão. Escondido, pegou a “guimba” e, quando deu a primeira baforada, foi surpreendido pelo inspetor de disciplina, que lhe desferiu uma bofetada, quase o fazendo engolir o que restava do cigarro. Concluía o relato com uma exclamação: “Bendita bofetada!”

Outro que conheci, mas não com tanta intimidade, faleceu mais recentemente, em 2007: Jayoleno dos Santos.

Nascido no bairro do Barreto, em Niterói, em oito de março de 1913, ficou órfão ainda criança, havendo seus pais falecido durante a epidemia da gripe espanhola em 1918. Criado, a partir daí, pelos tios, aos dez anos era matriculado no patronato e logo no curso primário destacou-se entre seus colegas, sempre promovido com distinção, conforme declaravam suas professoras, Haydéia F. de Siqueira, Zely Santos, Arina Mendonça de Almeida e Julieta Isaura Costa, das 1ª, 2ª, 3ª e 4ª séries, respectivamente. Foi em 27 de janeiro de 1925 que sua vida começou a mudar para melhor: naquele dia, o presidente (governador) Feliciano Sodré doou 18 instrumentos para a criação da Banda de Música do Patronato de Menores.

Jayoleno tinha admiração pelo som da flauta, mas não tocara em uma sequer. Mesmo assim, apresentou-se ao maestro, dizendo querer fazer parte da banda. Disse de sua preferência e recebeu um flautim. Ensaiou as primeiras notas, um ano depois já era revelação entre os colegas e, ao sair do Patronato, prosseguiu os estudos no Conservatório de Música de Niterói, com o mestre Arnaud de Gouveia. Aperfeiçoou-se na Escola Arcângelo Careli, dirigida pelo maestro Francisco Braga, e ingressou, por concurso, na Escola Nacional de Música, onde concluiu o Curso de Harmonia Superior e de História da Música. Em 18 de janeiro de 1936 fez o seu primeiro concerto no Teatro Municipal de Niterói e, em 1938, recebeu a medalha de ouro do prêmio de clarineta, na Escola Nacional de Música (hoje, da UFRJ), da qual foi professor. Lecionou também no Conservatório de Música de Niterói, participou da fundação da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Sociedade Brasileira de Música de Câmara, das quais foi o primeiro clarinetista, e dirigiu e regeu a Orquestra Sinfônica de Niterói. Compôs, em 1947, a “Sonata para Clarineta e Piano”, a primeira do gênero no Brasil. É de sua autoria a música do Hino de São Gonçalo, letra do professor Geraldo Pereira Lemos, de 1970. O maestro Jayoleno dos Santos faleceu em 14 de julho de 2007, em Niterói, onde residia, e foi sepultado no Cemitério Parque da Colina.

Com a lembrança de Mário da Costa Dias e de Jayoleno dos Santos homenageio também todos aqueles meninos que passaram pelo Patronato de Menores e os que, direta ou indiretamente, contribuíram para que aquela instituição prestasse relevantes serviços às crianças e aos jovens fluminenses por cerca de 60 anos.

 

Fontes: Professor Fernando José Silveira, da Unirio, sobre Jayoleno dos Santos.

            Mário Jorge Rodrigues Dias, filho de Mário da Costa Dias.

            Emmanuel de Macedo Soares, jornalista e pesquisador em História.

            Expediente do Estado do Rio de Janeiro (antigo Diário Oficial), 12-05-1912, p. 1.

            O Fluminense, 13-05-1912, p. 1; 28-5, 29-05, 05-06, 01-07, 05 e 06-07-1914, p. 1; 07-02, 09-02 e 05-06-1915, p. 1; 20 e 24-04-1916, p. 2; e 07-02, 29 e 30-06 e 07-07-1917, p. 1.

            Gazeta da Manhã, 28-05 e 05-07-1914, p. 1.

            O Imparcial, 06-07-1914, p. 1 e 3.

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