Núcleo antissalazarista

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Um dos fatos políticos internacionais de que São Gonçalo fez parte e que é geralmente desconhecido foi a sua participação na luta contra a ditadura de Antônio de Oliveira Salazar em Portugal.

Ela ocorreu em uma empresa insuspeita: a Companhia Vidreira do Brasil (Covibra), chamada popularmente só de Vidreira, ainda hoje em funcionamento no bairro de Vila Lage.

A Vidreira nasceu do impulso desenvolvimentista dado pelo presidente Getúlio Vargas a São Gonçalo, no seu esforço de livrar o Brasil da dependência externa. Na época, importávamos vidros planos dos Estados Unidos e nosso país passou a ser autossuficiente com a nova empresa, inaugurada em 16 de novembro de 1941.

Quem aqui resolveu investir foi o empresário português Lúcio Tomé Feteira, natural de Vieira de Leiria, onde nasceu em dezembro de 1902. Seu irmão gêmeo morreu dias após nascer, mas ele, embora pequenino e frágil, resistiu e seguiu os passos dos outros 11 irmãos. Pobre, até os quatro anos de idade somente calçava sapato aos domingos. Seu pai, Joaquim, era rigoroso quanto aos estudos: ensinou-lhe a ler aos três anos de idade, matriculou-o na escola local, acompanhava o dia a dia escolar e obrigava-o a ler o jornal consigo. E isto fez do menino um curioso sobre as conversas mantidas entre o pai, monarquista, e o irmão mais velho, Raul, republicano.

Único, entre seus irmãos, a estudar, seu sonho era trabalhar, o que começou a fazer aos 15 anos de idade, quando se empregou como aprendiz de pilotagem em uma empresa de transportes marítimos do estado português e recebeu a ordem de embarcar três dias depois em um navio que iria para Baltimore, EUA. Porém, chegou atrasado e não embarcou. Sorte sua, porque a primeira guerra mundial havia começado e a embarcação foi posta a pique por um submarino alemão, morrendo todos os tripulantes e passageiros. Ou azar seu, porque o chefe não gostou do atraso e lhe deu uma escada de corda, uma lata de tinta, uma raspadeira e um pincel, para raspar e pintar um navio docado.

Entre a alegria de salvar-se da morte certa e a revolta do trabalho que recebera, por salário de apenas 75 escudos por mês, Lúcio resolveu que o melhor era estudar mais e ingressou na Escola Comercial do Porto, que acabou abandonando aos 21 anos, para “fazer o mundo”: como funcionário do ministério das Finanças, foi para Angola, de lá para o Congo Belga (hoje República Democrática do Congo), onde recebeu a medalha Leopoldo II, conferida pelo rei Alberto, e regressou a Portugal. Ao casar com Adelaide Feteira, recebeu do sogro a administração da empresa deste, que transformou na Companhia Vidreira Nacional (Covina), dando início a um império empresarial que o levou a montar duas vidreiras no Brasil (em São Gonçalo e em São Paulo) e um banco nos Estados Unidos, além de investir em várias companhias e tornar-se uma das principais fortunas lusas.

Em Portugal, a ditadura salazarista fora implantada por Antônio de Oliveira Salazar (28-04-1889/27-07-1970) em 1932, quando foi instituído o Estado Novo, e ele administraria o país com mão de ferro até 1968, ano em que sofreu um acidente doméstico (caiu ao sentar-se em uma cadeira que não aguentou seu peso) e teve concussão cerebral, o que levou à sua substituição, em 27 de setembro daquele ano, por Marcelo Caetano, no cargo de primeiro ministro. O Estado Novo ruiria de vez em 25 de abril de 1974, com a Revolução dos Cravos.

Feteira opunha-se ao regime salazarista e, por isso, financiou várias atividades para derrubá-lo, mas nunca conseguiu sucesso. Permanecendo mais tempo no Brasil, aqui passou a abrigar exilados portugueses: recebia-os, dava-lhes emprego na Covibra e os orientava no aluguel ou compra de casa na região. E agia também no sentido inverso: quando estava em Portugal, abrigava exilados brasileiros, como fez com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, cedendo-lhe apartamento em Lisboa quando este teve de deixar o Brasil, ameaçado pelo regime militar que vigorou de 1964 a 1985.

Embora casado com Adelaide, que lhe deu o filho Lúcio, na intimidade familiar “Lucito”, falecido no Rio de Janeiro aos 30 anos de idade, Feteira teve vários casos amorosos extraconjugais, um dos quais com a sua secretária e viúva de um amigo, Rosalina Ribeiro, com quem praticamente convivia e dela teve uma filha. De causas naturais, Feteira morreu em Portugal em 15 de dezembro de 2000 e destinou quase toda a sua fortuna ao município de Vieira de Leiria, para aplicação em escolas e em uma fundação cultural. Mesmo assim, iniciou-se luta judicial dos herdeiros e Rosalina Ribeiro foi misteriosamente assassinada com dois tiros, em sete de dezembro de 2009, em Maricá, RJ, quando vistoriava as propriedades por ele ali deixadas. Lúcio Tomé Feteira é patrono da avenida que liga os bairros de Vila Lage e Barro Vermelho, em São Gonçalo.  

Voltemos, entretanto, ao apoio por ele dado aos antissalazaristas que emigraram para cá. Um deles era Jaime Alberto de Castro Morais, nascido em 13 de julho de 1882 em Macedo de Cavaleiros, médico e oficial da Armada Portuguesa. Formado pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1904, alistou-se no ano seguinte como guarda-marinha. Promovido a segundo-tenente, em 1909, e a primeiro-tenente, em 1910, participou ativamente da revolução de cinco de outubro de 1910, que levou à implantação da república portuguesa. De janeiro de 1911 a fevereiro de 1912, foi secretário-geral do governo de Angola. Em janeiro de 1914 era nomeado governador do Distrito do Congo, na então colônia de Angola, e após dominar as tribos locais, voltou às suas atividades de médico militar, até ser promovido a capitão-tenente em 1917, ano em que, em setembro, foi nomeado governador interino de Angola, cargo em que ficou até a ele renunciar em 15 de setembro do ano seguinte, por discordar do novo governo que se instalara, e contra este liderou, juntamente com outros oficiais, o Movimento de Santarém, eclodido em 10 de janeiro de 1919, e integrou naquele mesmo ano as forças pró-republicanas que derrotaram a Monarquia do Norte.

Nomeado governador da Índia em outubro de 1919, Jaime exerceu o cargo até abril de 1925, quando retornou a Portugal e cumpriu missões militares e administrativas, mas se revoltou com a implantação da Ditadura Nacional, em 1926, e participou de vários atos de insurgência, como a Revolta de três de fevereiro de 1927, no Porto, de que foi um dos líderes e que resultou em processo que o demitiu da Armada Portuguesa. Refugiado na Espanha, ingressou clandestinamente em Portugal, foi preso em primeiro de maio de 1928 e deportado para a Ilha de São Tomé, de onde fugiu em outubro, foi para a França e ali ficou até 1931, ano em que retorna à Espanha, de onde foi expulso ao serem descobertas suas atividades contra o governo português. A volta à França não foi demorada: reunindo exilados portugueses em França e Espanha, planeja em 1938 a invasão de Portugal por terra e mar, mas o plano não pôde ser executado por causa da derrota dos republicanos espanhóis. Preso e recolhido a um campo de concentração da Espanha, Jaime de Morais foi solto meses depois, atravessou a França como clandestino, por haver uma ordem de prisão contra ele, e refugiou-se na Bélgica. Resolvida a questão judicial francesa, retorna a Paris em janeiro de 1939, porém a tomada da cidade pelos nazistas em 1940 faz com que ele volte a Portugal, seja preso e expulso, tomando o caminho do Brasil como exilado.

É nestas condições que aqui chega e, no ano seguinte, conhece Lúcio Tomé Feteira, que lhe dá o cargo de gerente geral da Covibra, na Vila Lage, na qual ficaria até sua aposentadoria em 1958, período em que dá suporte aos outros antissalazaristas que para cá vinham. Jaime Alberto de Castro Morais foi condecorado com as comendas da Ordem Militar de (São Bento de) Avis, da Ordem de Santiago da Espada, da Ordem da Coroa da Bélgica, grande oficial da Ordem de Cristo, Medalha de Comportamento Exemplar de prata, Medalha da Campanha da Guiné, Medalha de Valor Militar, Medalha de Ouro da Campanha do Congo e Medalha de Ouro da Campanha de Angola.

Ao aposentar-se na Covibra, Jaime de Morais recebeu de Lúcio Tomé Feteira um isqueiro especialmente confeccionado para ele e que é mantido por seus descendentes, residentes em Niterói, cidade em que faleceu em 20 de dezembro de 1973 e onde foi sepultado no Cemitério de Maruí.

 

Fontes: Correio da Manhã, Lisboa, 14-08-2010, p. 1.

             Historiadora Heloísa Paulo, entrevista na Revista Tema Livre, 21-08-2010.

             Jayme Eduardo Bucero de Moraes, neto de Jaime de Morais.

 

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