O centenário da eletricidade

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Nossa cidade comemorou (pelo menos, deveria tê-lo feito) em 2009 o centenário da chegada da energia elétrica ao território gonçalense, por iniciativa do então prefeito Joaquim Serrado Pereira da Silva, preocupado em trazer a modernidade e permitir melhor qualidade de vida aos seus concidadãos, não só pelo abastecimento domiciliar como pela implantação de então moderna iluminação pública.

Até aquele ano, nas casas a iluminação era a lampião ou lamparina, usando-se gordura animal (de baleia) ou óleo vegetal (azeite) como combustível. Na iluminação pública, era ainda pior: ela aqui fora implantada em 1839, quando a Câmara Municipal de Niterói, de que São Gonçalo era distrito, foi autorizada pela presidência da província, por meio da lei nº 164, de 13 de maio daquele ano, a instalar oito lampiões no arraial da freguesia gonçalense, ou seja, as imediações da Igreja Matriz de São Gonçalo de Amarante. Em 1840, o número de lampiões foi acrescido de mais um e assim ficou pelos anos seguintes.

Funcionavam com óleo de baleia e custavam 400$000 anuais, com constantes interrupções porque não se pagava em dia ao cidadão contratado para cuidar da iluminação pública, conforme se deduz da lei provincial nº 644, de 18 de outubro de 1852, que abriu crédito para o pagamento de atrasados. O valor subiu para 500$000 anuais em 1874, mas o contratado José Pinto Correia só viria a receber três anos depois, de acordo com a lei provincial nº 2233, de cinco de fevereiro de 1877.

Melhor sorte tiveram os bairros de Neves e Sete Pontes (o primeiro por ser pólo portuário e industrial, e o segundo por ter vários palacetes, entre eles a Chácara Paraíso), que conseguiram em 1879 ser incluídos no conjunto de 1120 combustores de iluminação pública a gás que a província resolveu instalar em Niterói, aprovado pela lei provincial 2435, de 15 de dezembro. Mas eles só viriam a se tornar realidade em julho de 1880, quando o presidente da província João Marcelino de Souza Gonzaga determinou o levantamento das plantas para a iluminação pública das duas localidades gonçalenses e a execução da obra.

No dia 18 de outubro de 1885 foi inaugurada a extensão da linha dos bondes da empresa Ferro-Carril Urbano de Niterói, de Barreto a Neves, ainda puxados por parelhas de animais, mas importante para a eletrificação que viria anos depois. Por enquanto, a grande novidade era a iluminação a gás: em 23 de setembro de 1887 o governo da província concedera à Societé Anonyme de Travaux e d’Enterprises au Bresil (depois chamada Sociedade Anônima de Gás de Niterói) o direito de exploração dos serviços de gás em Niterói. E a própria administração provincial cuidou de, em 31 de dezembro seguinte, pela lei nº 2922, custear os dois primeiros combustores de iluminação pública a gás no Porto das Neves.

Com o decreto que, em 22 de setembro de 1890, declarou emancipado o até então distrito de São Gonçalo e a instalação do novo município, em 12 de outubro seguinte, a manutenção da iluminação pública passou à administração local, situação que perdurou até oito de maio de 1892, quando o município foi suprimido, e foi restabelecida em nove de fevereiro de 1893, com a nova instalação municipal, decorrente de lei estadual nº 34, de 17 de dezembro de 1892. A essa altura, os 16 lampiões da sede da vila já eram alimentados a petróleo e não mais com gordura animal ou óleo vegetal, enquanto os de Neves e Sete Pontes eram a gás e custeados pelo governo do Estado.

A situação permaneceu assim até que São Gonçalo deu importante passo em sua evolução, em 10 de agosto de 1898, com a inauguração da linha de bondes a vapor entre Neves e São Gonçalo e deste a Alcântara, em primeiro de julho de 1900. Dá para imaginar o sucesso, se considerarmos que à época os bondes da capital do Estado ainda eram de tração animal.

Quanto à iluminação pública, a situação era tão precária que fora suspensa e o vereador Joaquim Serrado Pereira da Silva, ao assumir a presidência da Câmara e as funções executivas então dela decorrentes, teve como um de seus primeiros atos o restabelecimento do sistema na vila, em novembro de 1901. E, em 30 de dezembro seguinte, ele mesmo realizou concorrência pública para a manutenção dos 16 lampiões a petróleo, que seriam acesos ao cair da noite e apagados às quatro horas da madrugada. Detalhe importante: em noites de lua cheia, eles não eram acesos, por economia.

Eles só atendiam à região central, ou seja, da Igreja Matriz ao Paço Municipal, atual sede da prefeitura, e por isso o vereador Manoel Rodrigues Faria propôs a iluminação a petróleo do Porto Velho, em 14 de julho de 1906, que não saiu do papel. Mas a eletricidade chegava aos poucos: em 13 de junho de 1903 o presidente (governador) do Estado Quintino Bocaiúva já instalara um gerador na Ilha do Carvalho (hoje pertencente ao Corpo de Fuzileiros Navais), em Neves, onde pretendia instalar a residência governamental, sonho que acabou no ano seguinte quando o presidente (governador) Nilo Peçanha comprou o atual Palácio do Ingá, em Niterói, e nele instalou a sede administrativa e a residência oficial do governante.

Enquanto isso, a prefeitura gonçalense continuava lutando para manter 16 lampiões na sede, com constantes apagões por falta de pagamento, o que obrigou o prefeito Ernesto Ribeiro a restabelecer o sistema em 14 de julho de 1906 com um rígido contrato. E a eletricidade continuava a chegar devagar: em 30 de julho de 1907, a Companhia Cantareira e Viação Fluminense (que sucedera a Ferro-Carril Urbano de Niterói) eletrificou o trecho de sua concessão entre o Barreto e Neves, causando euforia na população, pois superava tecnologicamente a Tramway Rural Fluminense, que mantinha seus bondes a vapor, já então chamados pelo povo de “chaleira”.

Foram os moradores de Sete Pontes os que deram o sinal de alerta: em três de maio de 1907, entregaram ao presidente (governador) Alfredo Backer um memorial com mais de duzentas assinaturas pedindo a instalação de bonde elétrico da Cantareira naquela via, entre o Barreto e a vila de São Gonçalo. A empresa Guinle & Companhia estava em expansão e começara a construir sua subestação em Sete Pontes, para melhor abastecer Niterói. Para ver as obras, o vice-presidente da República, Nilo Peçanha, ali esteve em visita em seis de julho de 1908, meses antes da inauguração, em nove de maio do ano seguinte.

Nesse intervalo de tempo, o prefeito Joaquim Serrado percebeu que os tempos mudavam e, por isso, assinou contrato em 12 de janeiro de 1909 com a Companhia Cantareira para a implantação do bonde elétrico em Sete Pontes (que viria a ser inaugurado em 25 de agosto de 1910) e resolveu a questão do fornecimento de energia elétrica aos gonçalenses, ao assinar contrato com a empresa Guinle & Companhia, em 30 de junho de 1909, para a iluminação pública e particular da cidade. Por 18.000$000, a serem pagos em doze prestações, foi contratada a instalação de duzentas lâmpadas em Neves, Porto Velho e Vila (como era chamado o centro da cidade). Era o término dos 18 lampiões a petróleo da área central e o início do fim dos combustores a gás de Neves e de Sete Pontes, que durariam por poucos anos mais.

 

Fontes: Relatórios provinciais 1835-1889, Biblioteca Estadual de Niterói.
            Legislação provincial 1835-1889, Biblioteca Estadual de Niterói.
            Anais da Câmara Municipal de Niterói, Arquivo da CMN.
            O Fluminense, coleção 1890 a 1910, Biblioteca Nacional.
            A Gazeta, 1929, acervo de Cezar Augusto de Mattos.
            A Capital, 07-07-1909, p. 1.

 

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